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Lígia Maria Salgado Nóbrega nunca segurou seu diploma. Nunca sentiu o peso do papel entre os dedos, nem ouviu seu nome ser chamado para atravessar o palco, sob os olhos orgulhosos da família. Não houve festa, não houve futuro. O que restou foi um silêncio imposto pelo Estado, uma história interrompida antes do ponto final.
Em 3 de abril de 2025, mais de cinquenta anos depois, a Faculdade de Educação da USP corrigirá, em parte, essa injustiça. Entregará a ela um diploma póstumo, um gesto que não apaga a violência sofrida, mas afirma, diante da história, que a potiguar Lígia existiu. Que foi estudante. Que foi militante. Que foi vítima de um regime que sequestrou, torturou e assassinou brasileiros e brasileiras que sonhavam com liberdade.
Lígia foi morta em 1972, na chamada Chacina do Quintino, no Rio de Janeiro. Estava grávida quando foi executada junto a Antônio Marcos Pinto de Oliveira e Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo. O regime forjou a versão de sempre: disseram que houve resistência, que os militantes atiraram contra os agentes da repressão. Mas os laudos revelaram a verdade: não havia pólvora em suas mãos. Nenhuma chance de defesa. Nenhuma escapatória.
No ano passado, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte também realizou uma cerimônia de diplomação póstuma de Emmanuel Bezerra e José Silton Pinheiro, estudantes potiguares assassinados pela ditadura. Em cada solenidade como essa, não estamos apenas entregando diplomas. Estamos dizendo que suas mortes não foram em vão. Que seus nomes não ficarão presos aos relatórios frios dos tribunais militares, mas seguirão vivos na memória e na luta por justiça. São gestos que enfrentam o esquecimento imposto, que devolvem a esses jovens um pedaço da vida que lhes foi roubada. Mas o que isso significa para nós, hoje?
No próximo dia 1º de abril, estaremos na Praça do Relógio, em Natal, para lembrar que esta data não pode ser esquecida. Foi nesse dia, há 61 anos, que o golpe militar se consumou e um ciclo de violência se instalou no país. Foram 21 anos de censura, perseguições, desaparecimentos e assassinatos de homens e mulheres que ousaram lutar pela liberdade.
Se hoje, mais de meio século depois, precisamos ainda reafirmar a memória dessas pessoas, é porque o passado autoritário não foi enfrentado. A ditadura tentou apagar suas trajetórias, mas foram seus sonhos que permaneceram.
Lígia, Emmanuel, José Silton e tantos outros deveriam ter recebido seus diplomas em vida. Não receberam. Mas seguimos aqui, garantindo que a história deles não seja esquecida. Porque memória não é passado. É presente. É futuro.
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