As poucas chuvas que têm caído em Natal nem estão entre as mais fortes, mas já foram suficientes para alagar a área da Praia de Ponta Negra que passou pelo processo de engorda. O mesmo se observou com o avanço da maré, que também invadiu a faixa de areia da engorda, apesar de não ter ficado entre as marés mais altas do ano.
“Isso me surpreendeu muito. As marés de preamar, que são as mais altas, variam ao longo do ano. As mais altas agora tiveram 2.2 de amplitude e já foram suficientes para avançar na engorda da praia. Não era o esperado, achávamos que depois da engorda teríamos sempre um setor, uma faixa de praia que ficaria emersa nessas médias de marés de preamar e só seriam alcançadas em marés muito altas, como as de ressaca, que são algumas por ano. Isso mostra que houve algum problema na altura da berma (superfície mais alta e plana do talude), essas não são nem as marés mais altas do ano, as mais altas chegam a 2.7, 2.9… quando isso acontecer, vai ficar tudo embaixo d’água!”, esclarece Venerando Eustáquio, professor de Engenharia Civil e Ambiental da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e coordenador do Laboratório de Geotecnologias Aplicadas Modelagem Costeira e Oceânica (GNOMO).
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Segundo o planejamento apresentado Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb), a promessa era alargar a faixa de areia da praia em até 100 metros, na maré baixa, e 50 metros, na maré alta.
Sem dar muitos detalhes, o titular da Semurb, Thiago Mesquita, anunciou que seriam feitas alterações na drenagem e que ela só ficaria pronta em março. Mas, a finalização do aterro hidráulico antes da conclusão do sistema de drenagem também não é um bom sinal, segundo o pesquisador da UFRN.
““Esse é o sistema que não deveria estar sendo empregado em praia de aterro. Não poderiam deixar que todo o volume de água da drenagem superficial, que vem carregada de esgoto, caísse ali porque há esgotos clandestinos direcionados para o sistema de água pluvial ou que escorre pelas ruas, cai nos bueiros e vai parar na praia e, também o inverso, a gente tem na cidade de Natal o sistema de saneamento com a água da chuva canalizada para o esgoto, tanto que quando chove vemos muitos bueiros com esgoto explodindo. Isso tudo, com a decisão que o sistema de drenagem de Ponta Negra ia receber aquelas caixas de quebra de energia foi muito equivocada, elas não estão contendo o volume de água que desce, está extravasando, carregada de lixo e esse material está chegando nos sedimentos da praia. A praia fica podre e a areia contaminada próximo a essas caixas, com a água exposta”, assevera Venerando.
Para o pesquisador, um dos problemas mais graves, além daqueles já citados na reportagem, é o fato do projeto em execução não ser de conhecimento público.
““Sabíamos que o sistema de drenagem era uma das coisas fundamentais a serem consertadas. A decisão por esse modelo é da gestão e é equivocada. Você gera uma praia com sedimentos caríssimos e escassos e coloca um sistema de drenagem da orla diretamente direcionado para esse aterro? É uma coisa muito nonsense (sem sentido). Em dias de chuvas mais intensas, esse sistema vai falir e formar aquele corredor de rio com esgoto, tirando sedimento e jogando para o mar”, reafirma Venerando.
O que é normal
Sobre a afirmação do secretário da Semsur de que “é normal” haver acúmulo de água no entorno das caixas dissipadoras de águas fluviais, o pesquisador é categórico:
““Isso não é normal e não pode ser normalizado. Até porque tem um problema sério aí, nós não estamos ainda no período das maiores chuvas. Se essas chuvas de 40 a 50 milímetros já causam esse estrago… a engenharia teria soluções para isso se tivessem tomado as decisões corretas. Quando o Ministério Público acionou a prefeitura, o sistema de drenagem era para ficar pronto antes da engoda. A engorda era para ter aterrado esse sistema desde o início. Parece que estão aprendendo por acerto/erro. A engenharia já não autoriza mais isso, a ciência já está muito distante, além disso, estamos tratando de dinheiro público… falta transparência”, alerta o professor Venerando.
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